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O que o Papai Noel pode ter a ver com um adulto capaz de mudar de ideia?

Todos nós conhecemos essa cena.

Uma criança espera ansiosamente a chegada do Papai Noel. Deixa um biscoito sobre a mesa, olha para o céu procurando um trenó ou acorda cedo para descobrir se os presentes realmente apareceram durante a madrugada.

Em poucos anos, ela descobrirá que Papai Noel é um personagem. Mas talvez essa não seja a pergunta mais interessante.

A pergunta que merece nossa atenção é outra: Por que culturas tão diferentes criaram personagens mágicos justamente para as crianças?

Papai Noel, Coelhinho da Páscoa, Fada do Dente, Saci, Curupira, fadas, gigantes, dragões…

Eles mudam de país para país. Mudam de nome, de aparência e de história. Mas algo permanece constante: quase todas as sociedades preservam narrativas mágicas durante a infância.

Seria apenas uma tradição? Ou essas histórias dialogam com uma fase muito particular do desenvolvimento humano?

A infância é o tempo da imaginação. Durante muitos anos, acreditou-se que imaginar era apenas uma forma divertida de brincar. Hoje sabemos que a imaginação ocupa um lugar muito mais importante no desenvolvimento infantil.

Entre aproximadamente dois e sete anos, a criança vive um período de intensa expansão do pensamento simbólico. Nessa fase, ela começa a compreender que um objeto pode representar outro, que uma história pode existir apenas na imaginação e que diferentes possibilidades podem coexistir sem que isso represente uma confusão sobre a realidade.

É por isso que uma caixa pode se transformar em um foguete. Uma colher pode virar uma varinha mágica. Uma capa pode transformar alguém em super-herói. E um velhinho pode, por uma noite, visitar milhões de casas ao redor do mundo.

Para os adultos, tudo isso parece fantasia. Para o cérebro infantil, são experiências fundamentais de construção do pensamento. O que a ciência chama de brincadeira simbólica

Na psicologia do desenvolvimento, esse tipo de experiência recebe o nome de brincadeira simbólica ou faz de conta. É quando a criança atribui novos significados aos objetos, às pessoas e às situações.

Ela não faz isso porque desconhece a realidade. Ela faz porque seu cérebro está aprendendo algo extraordinário: que uma mesma realidade pode ser interpretada de diferentes maneiras.

Essa capacidade de trabalhar com possibilidades está intimamente ligada ao desenvolvimento das chamadas funções executivas, um conjunto de habilidades cognitivas responsáveis por planejar, controlar impulsos, resolver problemas e adaptar o comportamento diante de novas situações.

Entre essas habilidades existe uma que tem recebido atenção crescente de pesquisadores: A flexibilidade cognitiva. A habilidade que talvez mais precisemos no futuro.

Durante muito tempo, inteligência era frequentemente associada à capacidade de encontrar a resposta correta. Hoje, diante de um mundo que muda rapidamente, uma habilidade ganha cada vez mais importância: a capacidade de mudar de estratégia quando a situação muda.

A flexibilidade cognitiva permite abandonar uma ideia quando surgem novas evidências, considerar diferentes perspectivas, adaptar-se ao inesperado e criar soluções para problemas inéditos.

Ela está associada à aprendizagem ao longo da vida, à criatividade, à inovação, à resolução de problemas complexos e até à saúde mental. Em outras palavras, não basta acumular conhecimento. É preciso saber reorganizá-lo.

E onde entra o Papai Noel?

Aqui é importante fazer uma distinção. A ciência não afirma que acreditar no Papai Noel desenvolva, por si só, a flexibilidade cognitiva.

O que as pesquisas sugerem é algo mais interessante. Uma infância rica em brincadeiras simbólicas, imaginação, histórias, personagens, rituais e experiências compartilhadas oferece inúmeras oportunidades para que a criança exercite processos relacionados ao pensamento flexível.

Quando ela aceita brincar de astronauta, médica, bombeiro, cientista ou exploradora, está experimentando novas perspectivas.

Quando transforma um sofá em um navio pirata, aprende que um mesmo objeto pode ganhar novos significados.

Quando participa de histórias cheias de fantasia, exercita a capacidade de imaginar possibilidades além daquilo que está imediatamente diante de seus olhos.

Tudo isso acontece enquanto brinca. Sem perceber. Sem que exista uma aula sobre criatividade ou inovação.

Talvez seja esse o verdadeiro presente. Talvez personagens como Papai Noel tenham atravessado gerações não apenas porque encantam. Mas porque preservam um espaço raro da vida humana.

Um tempo em que imaginar não é uma forma de aprender.

É durante a infância que descobrimos que nem tudo precisa ser exatamente como parece.

E talvez seja justamente essa disposição para imaginar novas possibilidades que continue fazendo diferença quando nos tornamos adultos.

Afinal, os maiores desafios da humanidade nunca foram resolvidos repetindo sempre as mesmas respostas. Eles começaram quando alguém foi capaz de imaginar uma resposta diferente.

Uma infância que prepara para um futuro que ainda não existe. Nós ainda não sabemos quais profissões existirão daqui a trinta anos. Não sabemos quais tecnologias transformarão nossa rotina. Nem quais desafios nossos filhos enfrentarão.

Mas sabemos de uma coisa. Eles precisarão aprender continuamente.

  • Adaptar-se;
  • Criar;
  • Colaborar;
  • Resolver problemas inéditos.

E todas essas capacidades dependem, em maior ou menor grau, da flexibilidade mental.

Talvez seja cedo para afirmar exatamente qual será o papel de cada brincadeira nessa construção. Mas já existem boas razões para acreditar que proteger a imaginação durante a infância não é apenas preservar a magia. É preservar uma das formas pelas quais o cérebro aprende a pensar.

Porque as crianças um dia deixam de acreditar no Papai Noel. Mas seria uma pena se, junto com ele, também perdessem a capacidade de imaginar que o mundo sempre pode ser visto de uma nova maneira.

 

Referências sugeridas para o final do artigo

Diamond, A. (2013). Executive Functions. Annual Review of Psychology.

Yogman, M. et al. (2018). The Power of Play. American Academy of Pediatrics.

Russ, S. W. (2004). Play in Child Development and Psychotherapy.

Harris, P. L. (2000). The Work of the Imagination.

Vygotsky, L. S. A Formação Social da Mente (edições em português).

 

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